Seguindo a máxima de Nelson Rodrigues de que "toda unanimidade é burra", Porto Alegre iniciou um grande movimento que se intitula Fórum Social Mundial, fazendo o contraponto na mesma época do Fórum Econômico Mundial, que acontece anualmente. O primeiro é rotativo e acontece em cidades de países emergentes. O segundo é sediado em Davos, na Suíça.
A oitava edição do Fórum Social Mundial teve como palco a universidade pública brasileira com o maior número de alunos (Universidade Federal do Pará - UFPA) e a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), uma ao lado da outra, bem na foz do Rio Guamá.
Belém, a acolhedora capital paraense, recebeu 115 mil pessoas de todo mundo, e também vultosos investimentos na área de saneamento, infra-estrutura e segurança. Nada mal para uma capital com altos índices de violência e precárias condições de saneamento.
Sendo a porta de entrada da Amazônia, o fórum viabilizou contato direto e constante com várias tribos indígenas que vieram mostrar um pouco de sua cultura, de sua alegria e de seus problemas para o mundo. Algumas inclusive com pouca relação com a nossa civilização. Não é necessário dizer que elas foram a grande atração do fórum.
Uma das características desse fórum é a democracia que impera nas mesas de debate. Não há portas fechadas. Você pega o guia de atividades e segue para os locais que agregam assuntos e pessoas que sejam do seu interesse. São milhares de atividades, palestras, exposições e representações de assuntos cotidianos propostos tanto por pessoas que se assemelham a nós quanto outros tantos bem mais exóticos propostos por pessoas que não fazem parte de nosso contato diário.
Da comercialização de camisetas do fórum até a construção de uma maloca por índios Tembé. Dos tradicionais protestos de centrais sindicais até rituais de comunidades quilombolas. De mesas debatendo a crise mundial até outras expondo a história da música popular brasileira. Do Tecno ao Carimbó, do aeroporto à floresta, dos vermelhos aos verdes.
Essa diversidade, a meu ver, é a grande sacada do fórum. Lá acontece a convergência da diversidade. Conhecimento, contato e articulação. Pessoas e instituições podem expor e receber informações, estabelecendo contatos que potencializem suas ações.
Como definiu o diretor do Instituto Ethos, Oded Grajew, o fórum tem permitido articulações cada vez maiores e mais eficientes de associações da sociedade civil e movimentos sociais ao redor do mundo. Foi isto que nós da executiva nacional do Partido Verde buscamos fazer por lá.
Foi a primeira vez que participamos maciçamente e organizando mesas. Uma experiência e tanto, transmitida diretamente pela internet através da TV do PV, que recebeu mais de 7.500 acessos durante os três dias de transmissão.
Nossas mesas foram muito procuradas e nelas discutimos as mudanças climáticas, biodiversidade, desenvolvimento local, a nova forma de socialismo que está surgindo na América Latina, os desafios e as limitações do etno-desenvolvimento na Amazônia e os caminhos para o desenvolvimento sustentável da floresta. Tudo registrado em vídeos que podem ser acessados pelo endereço www.tvdopv.com.br.
Parte da mídia nacional teceu críticas ao fórum cobrando um texto final do evento. Não acredito que esse texto seja seu grande propósito. É impossível resumir num documento tamanha diversidade. O que se propõe é a integração entre os povos levando-se em conta mais que simplesmente o fator econômico. É oferecer a palavra e a expressão a quem quer dela se utilizar, tendo ou não capital.
Essa alternativa a Davos é que vale. Afinal, se eles estiverem no caminho errado, pelo menos nós já estaremos discutindo um outro mundo possível.
*José Paulo Toffano é deputado federal (PV/SP), presidente da comissão de meio ambiente e desenvolvimento regional sustentável do Parlamento do Mercosul e secretário nacional de formação do Partido Verde.
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