Crítico mordaz dos privilégios que têm os carros, nas ruas do Brasil, em detrimento de pedestres e ciclistas, Nazareno defende um modelo democrático de acesso aos espaços públicosA Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista abre, na noite desta segunda-feira (13), o I Seminário de Mobilidade Urbana, evento coordenado pela Secretaria de Trânsito, Transporte e Infra-Estrutura. De hoje até quarta-feira (15), especialistas no assunto vão estar no auditório da Faculdade Independente do Nordeste/FAINOR discutindo com a população um tema que será prioridade na agenda do governo, conforme já anunciou o prefeito Guilherme Menezes.
A primeira palestra do seminário será ministrada pelo renomado arquiteto e urbanista Nazareno Stanislau Affonso. Especialista no assunto, ele foi secretário de Transportes de Santo André, Porto Alegre e do Distrito Federal. Em Brasília, ele coordenou o Programa de Paz no Trânsito, que humanizou o trânsito da capital federal e reduziu drasticamente o número de acidentes e de ocorrência de imprudências.
Em entrevista à Secretaria de Comunicação do Governo Participativo, Nazareno falou das primeiras impressões que teve de Vitória da Conquista após um passeio pela cidade e afirmou que há possibilidade de desenvolvimento de um programa semelhante àquele que fez de Brasília referência para todo o Brasil em termos de mobilidade urbana.
Crítico mordaz dos privilégios que têm os carros, nas ruas do Brasil, em detrimento de pedestres e ciclistas, Nazareno defende um modelo democrático de acesso aos espaços públicos.
1. O que é mobilidade urbana?
A palavra mobilidade passa a acontecer, de fato, a entrar no imaginário dos próprios técnicos de dez anos pra cá. Portanto, é uma coisa bastante nova. No Brasil, a gente trabalhava sempre dividindo a mobilidade em pedaços: tinha o transporte público, o trânsito, os pedestres, os ciclistas e os portadores de deficiência; esses três últimos eram vistos como problemas a ser resolvidos, nunca sob a ótica dos direitos.
A outra coisa é que isso tudo era desvinculado da cidade, então a gente passou a discutir os motivos pelos quais havia congestionamento na cidade. Criamos então a idéia de mobilidade urbana, ou seja, jogar tudo dentro do mesmo saco. E a partir daí a gente começa a se perguntar por que tanto privilégio para o automóvel, por que uma pessoa portadora de deficiência ou uma pessoa com mobilidade reduzida – grávidas ou idosos – não têm direito à cidade ou à rua; a gente começa discutir por que se mata tanto no trânsito do país – são 100 pessoas por dia – e faz diariamente de 300 a 600 pessoas portadoras de deficiência no Brasil. É uma chacina: nós matamos quase o equivalente a quase toda violência urbana no país.
Em resumo, nós temos que saber que mobilidade queremos: se manter os privilégios e a exclusão social ou construir uma mobilidade cidadã, aquela que garante transporte público de qualidade, bicicleta circulando sem riscos e calçadas qualificadas.
2. Na sua visão, o que mobilidade urbana tem a ver com democracia?
A gente vem defendendo a democratização do espaço público. Hoje, vivemos a seguinte situação: se considerarmos a via inteira, veremos que somente 10% são utilizados pelo transporte público e 90% pelo automóvel; mesmo em cidades como Curitiba, que têm muito corredor de ônibus, chega a 30%, mas na maioria das cidades não chega a 1% o que é utilizado pelo transporte público. Ou seja, as vias são privatizadas pelos automóveis.
Temos então de discutir a rua e essa parte que é privatizada pelo automóvel, porque os motoristas, não contentes com esse espaço, ainda ocupam as calçadas. E o pior é que tratam as coisas como se houvesse o direito do automóvel de se apropriar também da calçada. Uma pessoa idosa ou uma mãe com carrinho de bebê vai ter que enfrentar vários obstáculos e a saída é andar pela rua, correndo o risco de ser atropelada pelos carros.
As pessoas não se dão conta da agressão que é deixar o carro em cima da calçada. O pedestre não percebe que o direito dele está sendo usurpado; o direito mínimo de circular no espaço dele. Então, a gente entende que democracia pressupõem acabar com privilégios e construir uma cidade onde todos tenham direitos iguais.
3. A Prefeitura de Vitória da Conquista realiza nos próximos três dias o primeiro seminário para discutir a mobilidade urbana. Como o senhor avalia essa iniciativa?
Eu já dei uma andada por Vitória da Conquista neste domingo e pude ver exemplos da boa e má-utilização de passeios, vi as ciclovias, vi também que a cidade tem vias favoráveis com condições até de fazer mais ciclovias e intervir nas calçadas de forma efetiva, até mesmo para favorecer o comércio.
Todo mundo acha que ter estacionamento na porta da loja é importante e o primeiro a estacionar é o próprio dono da loja, que tira o lugar do cliente, que também vem de ônibus e à pé. Nesse aspecto, promover um seminário como esse é importante porque os especialistas contribuem na medida em que trazem suas experiências para dialogar com as experiências daqui; é importantíssimo o poder público ouvir o que a população tem de questionamento e é importante para a população enxergar de uma outra forma o seu cotidiano.
Nenhum comentário:
Postar um comentário