Ricarco Marques*O Encontro Estadual do PV da Bahia ocorrido ontem, na Faculdade de Arquitetura da UFBA, foi um momento histórico não só para o Partido Verde, mas para a política Baiana. O embate já conhecido na sociedade estadual entre os grupos de Juca Ferreira e de Edson Duarte, ou seja, da capital contra o interior teve um desfecho crucial no dia de ontem. Cheguei mesmo querendo entender o processo, até então meio obscuro em suas entrelinhas. Seguem portanto, minhas impressões.
A decisão majoritária dos representantes municipais do partido não tem nada a ver com um racha entre PV e Governo Wagner. Até porque não há motivos políticos maiores, além da desconsideração quanto à importância do PV na proposição das políticas estaduais, o que deve acontecer com todos os outros partidos aliados históricos.
O fato não corresponde a um simples descontentamento com o Governo Estadual, mas sim, efetivamente, ao desfecho de uma disputa interna de poder entre o grupo dos que se consideram fundadores da sigla na Bahia lotados quase todos na capital e historicamente ligados às raízes do Partido dos Trabalhadores. Do outro lado, está uma massa de novos e velhos filiados representantes de um ideal verde para a Bahia, reconhecendo na liderança de Edson uma possibilidade de independência de princípios e que juntos possuem em grande maioria as comissões municipais e os mandatos de prefeito, vice e vereadores no interior da Bahia (nesse contexto, os deputados Edigar Mão Branca e o mais novo verde Luiz Bassuma não se colocam ainda participantes de nenhum desses grupos).
Na verdade, o Encontro não definiu nada. Simplesmente expôs o que já estava colocado. Uma determinação da Executiva Nacional, com o objetivo de fortalecer a candidatura de Marina Silva, que, com a chegada de Luís Bassuma, incitou ainda mais a discussão de uma candidatura a Governador e a presença de Edson Duarte se colocando à disposição para uma vaga no Senado. O grupo do Ministro, historicamente detentor das decisões do PV baiano, teve sua derrocada final. Após inúmeros embates, uma convenção estadual cancelada, os líderes históricos caíram definitivamente em mais essa derrota.
Um parto difícil, já que havia mais de dez anos que o Partido Verde era personificado nessas grandes lideranças que erraram feio ao desconsiderar o poder do interior baiano e não tiveram a capacidade de dialogar com o novo PV que surgia a partir dos novos rumos da questão ambiental nos últimos cinco anos.
Se por um lado, o grupo capitaneado por Juca detinha a história do PV baiano, o grupo formado por Edson detinha praticamente todos os prefeitos, vices e vereadores do interior do Estado tendo em vista a incapacidade do grupo da capital de, por muitos anos, não eleger ninguém em Salvador.
Wagner pode atribuir a perda do partido verde no primeiro turno da eleição estadual aos erros de liderança do grupo da capital ou mesmo suas ausências na articulação partidária. Um pedaço da culpa vai também para o próprio Wagner e para Rui Costa por ter o tempo inteiro dialogado com os “históricos” e não com a direção consolidada do Partido, detentora de mais de noventa por cento das comissões executivas do Estado.
Wagner comprava o peixe na canoa do Ministro e não percebeu que logo atrás vinha o transatlântico verde dirigido por Edson. Talvez porque tenha confundido a direção municipal de Salvador com a Executiva Estadual. Mas não é a primeira vez que o governador (e todos os outros que o antecederam) acredita que a Bahia se resume à capital.
O surgimento de Bassuma como candidato a governador não necessariamente toma um ar de oposição ao projeto petista na Bahia. Na verdade, é fruto de um embate interno em que, na hora certa, Bassuma se colocou à disposição para a missão que deveria ter sido assumida por qualquer outro nome histórico, inclusive Juca. Mas isso não quer dizer que num possível segundo turno a aliança se restabeleça.
A real probabilidade do apoio do PV a Wagner num possível segundo turno é clara. Na verdade, o que torço mesmo é que estejamos lá. Mas numa possível negociação futura, o que muda são os personagens, que passam a ser Edson, Ivanilson, Mão Branca e não mais Juca e Bete. Também os termos da conversa: não vai ser mais tão barato o apoio do PV (em troca dos cargos para o núcleo central verde da capital baiana).
Se a candidatura de Marina e de Bassuma deslancharem na Bahia a patamares próximos a 10% do eleitorado, essa saída pode ser estratégica para a vitória de Wagner. Um aliado que cresce e apresenta sua força na hora certa de decidir. No frigir dos ovos, Marina pode ser boa para Dilma, assim como Bassuma pode ser bom para Wagner.
O contexto final pode ser muito bom para o projeto político do Partido Verde, que, nesse momento crucial da busca de políticas públicas sustentáveis em nome da vida no planeta, pode fazer com que os tradicionais partidos progressistas repensem sua forma de ver a política. Grandes transformações são dolorosas, às vezes. Mas o resultado final pode ser muito positivo, principalmente para quem interessa isso tudo: O POVO.
*Ricardo Marques é Vice Prefeito de Vitória da Conquista, Bahia. Presidente da Comissão Municipal. Graduado em Administração, Especialista em Gestão de Sistemas de Saúde e Mestrando em Meio Ambiente e Desenvolvimento.
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